segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

O GOLPE COMUNISTA EM ANDAMENTO FOI ABORTADO PELOS MILITARES!


HISTÓRIA

Relatório do Arquivo Público do Estado do Rio mostra que esquerdistas buscaram ajuda militar na ilha antes no golpe de 64.

Cuba apoiou guerrilha já no governo Jânio

MÁRIO MAGALHÃES DA SUCURSAL DO RIO

No dia 19 de agosto de 1961, o então presidente da República, Jânio Quadros, condecorou com a Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul o ministro da Economia de Cuba, Ernesto Guevara, o Che.

Provavelmente sem saber, Jânio, que renunciaria seis dias depois, homenageou um dos três principais dirigentes (os outros eram os irmãos Fidel e Raúl Castro) do regime comunista que, meses antes, já incentivava e apoiava a preparação da luta armada contra o próprio governo Jânio Quadros.

O "abraço de tamanduá" de Guevara (1928-67) em Jânio (1917-92) pode ser presumido pela leitura de um relatório descoberto pela Folha no acervo de memória da política do Arquivo Público do Estado do Rio.

Até agora, os historiadores acreditaram que o suporte do regime nascido com a Revolução Cubana de 1959 a esquerdistas brasileiros começou durante o governo João Goulart (61-64), intensificando-se após o movimento militar de 64. Na verdade, o apoio veio de antes.

Em maio de 1961, o dirigente do PCB (Partido Comunista Brasileiro) Jover Telles escreveu quatro páginas intituladas ""Relatório à Comissão Executiva sobre minhas atividades em Cuba".

No documento, endereçado ao núcleo supremo do CC (Comitê Central) do partido, ele detalhou o dia-a-dia da sua missão. Telles chegou a Havana em 30 de abril de 1961. Deixou a cidade em 23 de maio. No item 12 do relatório, Telles escreveu: "Curso político-militar: levantei a questão. Estão dispostos a fazer. Mandar nomes, biografia e aguardar a ordem de embarque".

Pedido de armas

Na mesma época, o líder das Ligas Camponesas, Francisco Julião (1915-99), estava em Havana tratando do apoio cubano à luta armada. No item 13, Telles contou que "Julião começou a falar em pedido de armas etc. (...) Dei opinião contrária, por dois motivos: a) poderia ser o pretexto para uma grande provocação e para o rompimento de Jânio com Cuba; b) o assunto não estava em boas mãos. Que discutissem o assunto com Prestes (Luís Carlos Prestes, secretário-geral do PCB), quando lá fosse".

Em maio de 1961, também estava em Cuba, conforme o relato de Jover Telles, um dos precursores da guerrilha socialista no Brasil, Clodomir dos Santos Morais, advogado que comandava um grupo de líderes das Ligas Camponesas e pregava -sem sucesso- a adesão do PCB à luta armada. Acabou expulso do partido.

O fundamental da narrativa de Jover Telles é a concordância dos cubanos em promover cursos militares. Embora inédita, essa não é uma informação de todo surpreendente.

"Desde o início (1959) os cubanos estavam convictos de que a luta armada era o caminho da revolução", diz o historiador Jacob Gorender, 78, que em 1961 era membro do CC do PCB. "Para mim, porém, o relatório é novidade. Deve ter circulado por poucas pessoas."

Adesão

É estranho que a indagação sobre treinamento militar tenha se originado de um dirigente do PCB, agremiação que em 60 realizara o seu Quinto Congresso e rejeitara qualquer tese pró-guerrilha. Nos anos seguintes, mantendo a posição, perderia dirigentes como Carlos Mariguella, Mário Alves, Joaquim Câmara Ferreira, Apolônio de Carvalho e os próprios Jover Telles e Jacob Gorender. Em grupos diferentes, todos eles aderiram - alguns morreram- à luta armada contra o regime militar (1964-85). Na política de "exportação da revolução" implementada por Cuba, o Brasil, maior país latino-americano, tinha um lugar importante. Jover Telles foi recebido por Fidel Castro (até o hoje o dirigente máximo cubano), Che Guevara e outros quadros. O brasileiro teve um encontro reservado com o embaixador da atualmente extinta União Soviética, potência comunista que se opunha à política guerrilheira.

Enquanto conspirava com militantes brasileiros oferecendo cursos militares -e talvez já fornecendo o apoio material que, com certeza, chegaria ao país a partir de 1962 -, Cuba tinha em Jânio Quadros um aliado contra a campanha dos EUA para derrubar o governo de Fidel Castro.

Ao receber a condecoração de Jânio, Guevara discursou, no Palácio do Planalto: "Como revolucionário, estou profundamente honrado com esta distinção do governo e do povo brasileiros". Disse haver ""todo o desejo de estreitar relações".

Gesto

O gesto de Jânio irritou setores das Forças Armadas e serviu de motivo para o recrudescimento da oposição ao seu governo. Em 25 de agosto, sete meses após assumir, o presidente renunciou. O autor do relatório sobre a missão comunista a Cuba, Jover Telles, não foi encontrado pela Folha. Em 1976, já como integrante da direção do PC do B, ele foi apontado como o delator que levou o Exército a reprimir uma reunião do partido e a matar três militantes.

No começo dos anos 90, Telles estava morando no Rio Grande do Sul. Usava identidade falsa, com medo de que os ex-correligionários o assassinassem. Se estiver vivo, já passou dos 70 anos. A cópia do seu relatório consta de microfilme com cadernetas de Luís Carlos Prestes (1898-1990) apreendidas pela polícia em 1964. É possível que o relatório estivesse em poder do chefe do PCB.

Sob o comando de Prestes, o PCB permaneceu distante da opção guerrilheira. Até o início dos anos 70, Cuba treinou pelo menos 202 militantes brasileiros em guerrilhas urbana e rural. O regime militar venceu a guerra contra a luta armada.


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